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Essa história é antiga, dos tempos de ensino médio e de pouco pelo no peito.

8 horas preso num carro com a mesma fita da Cássia Eller tocando, 8 malditas horas ouvindo sobre o tal do segundo sol e das suas dúvidas sobre ainda ser uma garotinha ou não.

Estava indo pro interior do interior do interior, uma cidadezinha realmente pequena, daquelas onde a única diversão é no domingo ir a igreja saber das fofocas da cidade. Lá morava a avó da menina que eu namorava na época e a pedido dos pais dela, fui junto.

Nunca fui fã de viagens longas e o fato de não poder esticar as pernas não ajudava. Nunca chegávamos, nunca chegávamos, nunca chegávamos, nunca chegávamos, nunca chegávamos, chegamos.

Era madrugada e paramos defronte a casa, descemos do carro e sendo eu o namorado da filha/neta deles, quis mostrar serviço carregando a maioria das malas. Era uma rua de terra que passava pela igreja da cidade, pela casa onde ficaríamos e a uma distância de aproximadamente 100 metros, o cemitério da cidade. E é ai que surge o primeiro dos muitos problemas que eu enfrentaria nessa viagem, o meu querido ex-sogro diz:

– João! Vai ali no carro e pega a capinha do meu óculos que ta no banco.

Prontamente peguei a chave do carro e me dirigi ao pátio da casa. Dois passos dados em direção ao carro e TODAS AS LUZES DA RUA APAGAM. Cemitério, rua sem luz, cidadezinha estranha, carro longe, CARALHO! EU NÃO VOU PEGAR ESSA MERDA DE CAPINHA!

– Não encontrei a capinha, ela não tava no banco – menti e torci que acreditassem em mim.

– Deixa que eu vou procurar depois. – me tranqüilizou.

Fui apresentado a avó que insistia em me chamar de Paulo, apresentação essa que seria necessária em todas as manhãs, pois ela nunca lembrava-se do meu nome, de quem eu era e o por que de estar na casa dela. Não importava quantas vezes eu fosse apresentado ou corrigisse a velhinha, para ela, eu sempre seria o Paulo. E fui colocado em um dos quartos para dormir. Eram quase 3 da manhã e minha cama ficava exatamente sob a janela, que adivinhe, tinha uma vista ótima que dava para o cemitério.

Eu certamente não dormi aquela noite.

E o dia amanhece, o cemitério continua lá, envolto em neblina e escuto barulhos na cozinha. Vejo que é a avó, que mantinha o hábito de acordar com os primeiros raios de sol. Me encontrei com ela na cozinha onde ela me fitou com um olhar interrogativo.

-João…- eu disse desanimado e ela continuou sem entender. Passaram se alguns segundos e ela exclamou:

-Paulo! Tem pão em cima da mesa se estiver com fome!

Sentei-me no sofá, era ano de copa do mundo e na TV passava Argentina e Costa do Marfim. Nunca fui de ter paciência de assistir a um jogo inteiro, mas qualquer coisa servia pra passar o tempo naquele lugarzinho frio.

E foram acordando um a um, minha namorada nem me dava oi quando acordava e eu ia me sentindo cada vez mais sozinho. Eu era um apêndice indesejado ali. O que me leva a pensar agora por que e como eu agüentava aquilo. Escutava muito Bryan Adams nessa época e antes que eu me esqueça; Bryan Adams vá se fuder!

Íamos a Gramado naquela tarde e sendo o muleque que eu era, não dei muita bola aos avisos referentes ao frio. Coloquei um moletom fino e fomos. Nunca passei tanto frio na minha vida, faziam 4 graus, mas a chuvinha fraca gerava uma sensação térmica de -6. E estava lá eu, tremendo de frio, com 12 reais na carteira e sendo arrastado de loja pra loja onde as mulheres olhavam tudo e não levavam nada. Numa das lojas que não eram exorbitantemente caras, consegui comprar uma toquinha de lã, chuta por quanto?

12 reais.

Agora além de com frio, estava sem dinheiro.

Pagaram-me um chocolate quente e na ânsia de amenizar o frio, queimei feio a minha língua. Eu só queria voltar pra casinha perto do cemitério em lugar nenhum e deitar minha cabeça.

Mais uma noite mal dormida. Barulhos sem explicação vinha da cozinha, do forro e do lado de fora da janela.

Acordei e fui tomar um banho. Era um banheiro antigo, amplo, com uma banheira abaixo de um chuveiro e uma cortina de plástico. A avó, me deu instruções rápidas de como fazer a água não esfriar e se despediu me chamando novamente de Paulo.

Liguei o chuveiro e tive o cuidado de colocar a cortina para fora da banheira, não queria molhar ela desnecessariamente. E passados uns 10 minutos em baixo daquela água quente que estava sendo o melhor momento daquela viagem ouço batidas na porta e meu nome.

-JOÃO! ME RESPONDE!? TA TUDO BEM AI!?!

Puxei a cortina para o lado e logo percebi a causa de tanto alarde. Com o meu observador e bem intencionado ato de colocar a cortina pra fora da banheira fiz com que a água batesse na mesma e escorresse direto no chão do banheiro, que já estava completamente coberto por uma camada de quase 3 centímetros de altura de água, que se estendia até a porta e passava por debaixo, saindo na sala da casa.

Passei um tempinho tentando jogar o excesso de água com o pé em direção a um ralo, mas não se mostrou muito e eficaz e fui atrás de um rodo.

Passei o início da tarde tirando água do banheiro.

Ao fim da tarde íamos visitar amigos da família e logo no estreito corredor de entrada havia um papagaio velho, meio careca, que não foi com a minha cara. Ele ficava numa plataforma no alto, mas toda vez que eu passava perto ele descia numa velocidade espantosa e tentava me morder.

Nos sentamos na sala e a conversa rolava animada, enquanto eu via os melhores lances dos jogos da copa na televisão. Quando uma menina veio me chamar. Ela devia ter a minha idade, tinha uma voz suave e um lindo cabelo loiro. Veio me avisar que as pizzas estavam prontas e eu fiquei olhando embasbacado aquela que tinha sido a única coisa boa em toda a viagem.

Ao chegar à cozinha dei de cara com a minha namorada, rabugenta e carrancuda e pensei em como eu era estúpido e infeliz por estar com ela e não com a loirinha sorridente, que sempre respondia meu olhar com um sorriso. Soube que ela tinha feito as pizzas e comi como se não houvesse amanhã, só que com isso surgiu um grande problema…

Eu precisava usar o banheiro…

E a porta ficava muito próxima ao papagaio…

Tomei fôlego e fui em direção ao papagaio, olhando ele nos olhos e sentindo toda a fúria inerente naquela ave desgrenhada. Ele vinha descendo pra tentar me atacar. Parei. Virei. E voltei pelo corredor.

Olhei por cima do ombro e vi que ele estava voltando a sua plataforma, aproveitei o momento de distração e passei correndo por baixo dele. Pássaro maldito. Quando sai, sai com o cinto na mão e acertei-o na cabeça quando ele ameaçou descer. Sempre tenho problemas com papagaios, não sei qual o problema deles comigo.

Fomos embora e eu nem perguntei o nome da menina…

Mais uma noite mal dormida, dessa vez com um acréscimo, eu precisava ir ao banheiro novamente. Durante o dia, o corredor que levava ao banheiro era tranqüilo, mas durante a noite, meu amigo, só de lembrar eu sinto arrepios.

Era um corredor com uns 2 metros de largura e 8 de comprimento, com um assoalho velho de madeira que rangia a qualquer passo. Nas paredes, fotos de família em preto e branco, todas de pessoas que já morreram e que pareciam manter o olhar fixo em quem ousava se aventurar por aquele corredor tarde da noite. Como fonte de iluminação, uma grande vela vermelha acessa sobre uma mesinha no centro do corredor…

Levantei e voltei pra cama umas 4 vezes antes de criar coragem e ir até o banheiro e quando voltei, depois de ter passado por tudo isso, deitei e dormi o sono dos justos.

Fui acordado perto do meio dia, com as malas sendo arrumadas e nos preparando para voltarmos.

A avó se despediu de nós, errou meu nome novamente e pegamos a estrada.

Eu prometi para mim mesmo que nunca mais me meteria em um programa de índio como esse, promessa que eu quebrei umas 3 ou 4 vezes.

E voltamos escutando a mesma fita velha da Cássia Eller, mas 8 horas de segundo sol, mimimi e blá blá blá.

Te dei casa, carro, comida e roupa lavada. Te dei amor, carinho e te segurei nas horas onde o mundo parecia cair ao seu redor. Te dei amigos, te dei a vida que você sempre sonhou.

Frequentemente me irritava com a sua falta de iniciativa e capacidade de se virar sozinha, mas era por um bom motivo, queria que você crescesse, que se tornasse forte e independente, porque o mundo não ia parar pra te ajudar, ele vai te atropelar se você parar. Estava te ensinando como se ensina a um irmão mais novo, na esperança de um dia quem sabe, ser superado por você.

Te trouxe pra dentro da minha família e te tratei como um dos meus…

Pra descobrir que tudo que eu sabia sobre você era mentira.

Você me olhou nos olhos, mais de uma vez e negou tudo. E eu acreditei, eu sempre acreditei.

Não sou burro, já tinha visto vários pequenos sinais, mas não queria acreditar em nenhum deles. Era simplesmente mais fácil pra mim, e pra todo mundo, achar que o vilão da história era eu.

Mas eu sempre descubro, eu tenho uma obsessão por descobrir as coisas, obsessão essa que sempre me mostrou o que eu não gostei de ver, e dessa vez não foi diferente.

Deve ter sido extremamente prazeroso pra essa sua cabeça doente onde princípios distorcidos reinam absolutos ver que eu não desconfiava de nada, você deve ter se sentido vitoriosa e orgulhosa da sua própria “malandragem”.

Não sei como conseguia deitar a cabeça no MEU travesseiro e dormir sem culpa de nada. Mas é claro, é muito mais fácil me ver como o vilão da história, sempre foi assim, eu sempre fui o grosso, o impaciente…

Mas a vingança é uma filha da puta, vesti meu terno e falei que íamos sair, conversar, nada de mais, tudo normal.

Cheguei na frente da sua casa e larguei no seu colo, folhas e folhas de provas, de evidências concretas e irrefutáveis.

E naquele momento seu castelinho de superioridade e “malandragem” desmoronou. Todas as suas mentiras estavam lá, desmentidas por você mesma, a mesma que achou que eu nunca iria encontrar nada. Todas as promessas que foram feitas estavam claramente sendo descumpridas ali, todas, nenhuma sobrou imaculada.

O seu aparente sorriso ao me ver logo se transformou em desespero, você tentou argumentar, mas nada justifica ou justificará aquilo, você não tinha o que dizer em sua defesa e nem nunca terá.

Não sabia que era capaz que sentir tanta raiva e fiquei muito feliz em ver que além de sentir, eu conseguia colocar tudo pra fora, minha linha de raciocínio por imagens, que sempre me atrapalhou em discuções estava agora agindo a meu favor e a cada palavra dura que eu falava, e a cada verdade dilacerante que eu arrancava da minha alma, eu ia me sentindo mais leve.

Mas quer saber? Eu sou melhor que isso e mereço coisa melhor.

Beijos e nunca mais ligue

Não, esse texto não tem nada a ver com religião.

É uma história, ou quem sabe um presságio.

E ele finalmente voltava ao país, havia passado alguns anos fora, acumulando fortuna em seus variados negócios e agora voltava ao seu país. Estava diferente, ao menos na aparência, sua pele estava alaranjada, devido às muitas sessões de bronzeamento artificial, ostentava um largo bigode loiro e nenhum sinal de calvice. Casou-se com uma estrangeira e era pai de dois filhos, um menino, o mais velho e uma menina, sua favorita.

O tempo passou como uma chuva de verão, aqueles seus velhos amigos que não via há muito estavam todos mudados, ao menos na aparência, ele ansiava por revê-los. E logo cada um deles recebeu a notícia de sua volta, em conjunto com um convite a uma reunião de amigos, tal qual as que costumavam fazer quando eram jovens.

– O Ricardo finalmente voltou! E tá convidando os bróder pra uma reuniãozinha na casa de campo dele! Eu nem sabia que ele tinha uma casa de campo! – Gritava Nelson ao telefone.

– Tá bom, já entendi o recado, mas que dor de cabeça maldita, será que dá pra falar mais baixo nessa merda de telefone? – Respondia sem paciência alguma Alfredo, que havia a pouco se tornado alvo das ligações do desocupado Nelson. Ele ligava mais de cinco vezes ao dia, qualquer “novidade”, por mais ínfima que fosse, era motivo para uma ligação.

Nelson se casou com uma mulher “não muito bonita, mas muito divertida” como ele mesmo disse bêbado á seus amigos uma vez e com ela teve 5 filhos, 3 meninos e 2 meninas, todos mal educados, sujos e briguentos, assim como o pai. Proferem palavrões com uma desenvoltura espantosa e ao menos uma vez por semana seus pais são chamados ao colégio pois um dos 5 se meteu numa briga. Apesar dos pesares e contrariando o senso comum, seus filhos são boas crianças, justos, normalmente se metendo na briga dos outros no ímpeto de ajudar, deixando seu pai secretamente orgulhoso dos pimpolhos.

Nunca permaneceu muito tempo no mesmo emprego, foi muambeiro, vendedor de carros, bicheiro, agiota e criou avestruzes por um tempo, até o incidente com o avestruz descontrolado que lhe custou o olho esquerdo, somado a isso um problema de circulação nas pernas que o mandou direto para uma cadeira de rodas.

Alfredo por sua vez se formou em jornalismo e filosofia, sonhava em ser crítico de cinema, mas acabou se tornando professor de filosofia para o ensino médio. Amargou por alguns anos um casamento com uma mulher que era exatamente como ele seria caso fosse mulher. Com o acréscimo de um temperamento horrível e um ódio inexplicável de tudo e todos. Sua ex-esposa foi responsável por acabar com o clube de leitura das mulheres em um ataque de superioridade autoproclamada, incidente esse que deixou seus amigos receosos em contar com a presença do casal em reuniões.

Foi só então com a sua tão esperada (e incentivada) separação que Alfredo voltou a ser benquisto por seus amigos. Largou o cigarro, emagreceu e diminuiu consideravelmente a dose de bebida, hábitos que havia adquirido com sua ex-mulher. Não teve momento algum de tristeza em relação a separação, começou a dar em cima das alunas, as que já se atiravam em cima dele e a ir em festinhas de faculdade com Gilberto e foi numa dessas festas que conheceu sua nova mulher, muito mais nova, bonita e divertida que a anterior. Seu único filho passa parte do tempo com a mãe mal amada, que faz questão de falar mal do pai sempre que pode, e outra parte com o pai, que faz questão de estragar a rotinização que a mãe tenta impor ao garoto.

– Escuta Nelson, amanhã eu vou sair com o Beto pra dar uma corrida na beiramar e já aviso pra ele, não precisa ficar ligando pra ele, tá bom?

– Ta beleza Alfredo, mas eu tenho que telefonar pro Beto pra…

– Pra? – indagou Alfredo.

– Ah, esquece! Só não esquece de avisar pra ele!

– Okay Nelson, tchau.

Alfredo acordou cedo, tomou um café forte e pensou em fumar um cigarro. Não o fez e se sentiu vitorioso, pensou em ligar para Nelson, mas logo afastou o pensamento pois um telefonema nunca era rápido quando se tratava de Nelson. Saiu e foi encontrar Gilberto para sua corrida matinal.

Se Gilberto fosse definido em uma palavra, essa palavra seria intensidade. Seus amigos já se cansaram de passar o “melhor final de semana da vida” ou tomar a “melhor bebida do universo” ao lado dele. Formou-se em arquitetura e exerce a profissão pela qual tomou gosto jogando “The Sims”, mas circulam boatos de que ele também trafica armas, drogas e mulheres.

Beto é um daqueles caras que idolatra sua juventude, anda sempre com um mullets, jaqueta jeans e uma camiseta de banda dos anos 80 por baixo, ainda vai nas festinhas de faculdade, só pra se sentir na “melhor época da sua vida”. Se casou com a sua namorada da universidade, seu intense life-style não podia deixar por menos, mas logo se separaram devido a intensidade e as festinhas de faculdade onde Beto ia sozinho.

Foi numa dessas festas, que passou a freqüentar com Alfredo após sua separação, que conheceu sua segunda mulher. Quase 20 anos mais nova, estudante de artes, e sendo Beto, o Beto, em 2 meses já estavam morando juntos em sua casa. Ela não se dava muito bem com os cachorros e em 3 meses já haviam se separado após diversas brigas feias e ressacas de Beto. Todas as brigas e principalmente os términos de relacionamento eram muito custosos emocionalmente para ele, sempre resultando em um encontro de emergência com os amigos onde ele bebia até não agüentar mais, tentava ligar pra ex, era impedido, vomitava até o que não havia comido e passava a noite deitado no chão do box.

Cansado disso tudo resolveu inovar e chocar ao mesmo tempo, conheceu e se casou (pela internet) com um vietnamita que não fala nossa língua e a trouxe ao Brasil. E estão muito bem obrigado.

Encontraram-se como de costume em frente a padaria e logo estavam correndo, sempre repetiam o mesmo caminho, fato que incomodava o hiperativo Gilberto, que nesse dia resolveu mudar o trajeto a contragosto de Alfredo.

Por coincidência (ou não) passaram em frente ao escritório de Clarice e foi ai que Alfredo se lembrou da conversa com Nelson ao telefone…

– Beto! Lembrei! O Nelson me ligou…- e foi interrompido por Beto.

– Ele também me ligou, falando da volta do Ricardo e da festa que ele quer dar. VAI SER A FESTA MAIS ANIMAL DO UNIVERSO!

– Pois é…- completou Alfredo constrangido com a intensidade de Beto- vamo aproveitar que a gente ta aqui perto e ir falar com a Clarice.

O escritório de Clarice ocupava inteiramente um dos últimos andares de um caro centro comercial da cidade, antes de se formar e em um golpe de sorte, Clarice ganhou muito dinheiro ao vender o protótipo de um sofá criado por ela a uma grande empresa moveleira. O motivo de todo esse interesse por parte da empresa foram os elogios que uma cantora famosa fez ao protótipo em uma exposição. A imprensa estava por perto e o comentário apareceu na televisão juntamente com a imagem da cantora no dito sofá. Virou modinha e modinha gera lucro.

Mas voltemos a Clarice, com o dinheiro da venda ela fez lipoaspiração, colocou silicone nos peitos e comprou vários terninhos, que se tornaram sua roupa habitual e com o que sobrou disso, abriu sua própria empresa de móveis.

Alfredo e Beto chegam a recepção e pedem para falar com Clarice. A secretária, que estranhando a familiaridade com que os dois homens de meia idade suados e de shorts (um deles com uma bandana na testa) trataram sua chefe, resolveu por bem falar que ela não estava, que estava viajando e logo os mandou embora.

Pois foi quando a dupla se encaminhava a porta que Clarice saiu de sua sala, café numa mão, pasta de documentos noutra, cabelo curto e loiro, vestindo um terninho rosa.

-Senhora!- exclamou a secretária assustada.

Clarice estava tomando um gole de café quando percebeu a presença de dois estranhos suados e mal-vestidos em seu hall. Interrompeu o gole sem tirar a xícara da boca e levantou uma sobrancelha em sinal de dúvida.

– Eles já estavam de saída senhora!- se apressou a avisar a secretária.

-Clarice!- exclamou Alfredo.

-CLARICE!??!?!?!?!?- exclamou Beto confuso.

Beto não havia visto Clarice após as novas cirurgias e o tingimento do cabelo e estava honestamente surpreso com as mudanças de Clarice.

Ela havia se casado com um cara grande, bem grande, de descendência alemã, mas dócil como um cãozinho e de sorriso fácil, o que contrastava bastante com os surtos de TPM (e os fora dela) de Clarice. Em dado momento foi proibido de participar das noites de poker na casa de Beto, pois se esqueceu de comprar milk shake na volta pra casa.

Tiveram 2 filhos, um casal. A menina, foi criado como a princesa do universo e se porta como tal, fato que irrita especialmente Nelson, que acha que faltaram na criação da menina  umas boas surras. O menino, sempre super protegido pela mãe demonstrava trejeitos afeminados, o que também irritava Nelson e fazia do filho de Clarice o alvo favorito das brincadeiras maldosas de todas as crianças.

– Alfredo e Beto! PORQUÊ VOCÊ ESTAVA MANDANDO ELES EMBORA %$@#!!! – esbravejava Clarice sobre a secretária.

– É que eu achei que…-balbuciava a mesma

– NÃO QUERO SABER! A PRÓXMA DESSA E VOCÊ VAI ESTAR NO OLHO DA RUA!!

– Mas o que traz vocês dois aqui?- e virou-se bruscamente em direção a secretária – e você, diga que eu não estou se alguém aparecer.

– Mas era isso que eu…- e subitamente ficou em silêncio ao encontrar o olhar furioso de Clarice sobre si.

São 7 da noite e o telefone toca. É Nelson, a esposa de Ernesto atende.

– Ernesto! Telefone! É o seu amigo (chato) de novo!

– Já vou coração, já vou… Alô?

– ERNESTO! SUA BICHA COMPRIDA!

– Ah… Oi Nelson… Qual seria o motivo dessa terceira ligação hoje?

– O Ricardo ta voltando!

– Sim Nelson, eu sei, ele me mandou um e-mail também, na verdade, ele mandou pra todo mundo…

– Tua mulher ainda ta ai perto?

–  Tá sim.

– Agora saiu, bicho, toda vez que você liga ela fica do lado do telefone ouvindo tudo que eu falo! Ela não gosta de você e acha que você vai me levar de volta pra esbórnia!

– Se eu ainda pudesse andar, certamente te levaria pra esbórnia!- comentou descontraído Nelson.

– Eu vou na reunião de volta do Ricardo…- e Nelson interrompeu.

– Vê se consegue deixar tua mulher em casa!

– Vou tentar, ela ta voltando, muito axé pra você.

Ernesto e Nelson se conheceram na universidade, eram completamente diferentes, mas a partir de uma serenata conjunta para uma ex-namorada de Nelson eles passaram a ser muito amigos. O tempo passou e um dia, já formado, Ernesto acordou e percebeu que não era aquilo que ele queria fazer da vida, não queria a vida desregrada, as festas e toda a loucura inerente ao seu estilo de vida.

Cortou o cabelo, fez a barba, colocou a camisa pra dentro da calça, comprou um coletinho de lã e foi estudar contabilidade. Foi de “hippie sujo” a “executivo certinho” em um piscar de olhos.

Arranjou uma namorada mandona, que odeia seus antigos amigos e tenta de toda forma controlar a vida dele. Se casaram e Ernesto não freqüenta mais a noite do poker, fato que prova que ela vem tendo sucesso em sua empreitada. Abriu uma firma de contabilidade em conjunto com Jorge e não se parece nem um pouco com seu “antigo eu”.

E Ricardo chegou, e todos (inclusive a mulher de Ernesto) foram recepcioná-lo e passar uma tarde agradável na compania dos velhos amigos.

Eu tinha um amigo que tinha uma amiga, que tinha uma amiga e essa história começa mais ou menos desse jeito…

“Cara! Ela surtou!” – diz meu amigo. “Conheci uma amiga dela essa tarde e só de zueira disse que um amigo meu tinha achado ela gata e agora ela ta querendo muito saber quem foi, adivinha que nome eu joguei na roda?” – ele continuou e eu já sabia a resposta: o meu.

Nunca pareceu uma boa idéia, a história que foi contada girava em torno do fato fictício que eu a havia visto numa tarde onde ela foi à universidade, só que eu nem sequer estava na universidade naquela tarde. Um bom começo, um bom começo…

E entre mentiras e meias verdades fui pouco a pouco me familiarizando com quem era o alvo do meu afeto, surpreendi-me ao ver uma foto, meu amigo havia dito que ela era, de fato, bonita, mas não havia dado muito crédito ao seu julgamento, nossos gostos para beleza feminina quase sempre são bem divergentes.

Stalkerismos a parte, começamos a nos falar e me surpreendi novamente, que garota mais divertida! Super heróis, comidas esquisitas, zumbis, filmes, músicas e sailor moon, não que eu entenda algo de sailor moon, era só pra manter a conversa fluindo… Sabe como é né? Ficamos conversando pelo computador por umas 2 ou 3 semanas, era final de semestre, então passávamos muito tempo em seus respectivos computadores, trabalhos finais e toda aquela coisa chata de sempre, e durante a madrugada ela surgia com alguma coisa pra comer, que vinha seguida de muitos elogios.

Madrugada adentro fazendo trabalho te faz ter muita fome e ela na brincadeira falava que era só dar um pulo lá que teria uma pedaço esperando por mim, isso se repetiu por alguns dias, até que em uma madrugada eu aceitei o convite, eram umas 3 da mnhã, não tinha nada a perder, eu iria lá, ignorando o fato de ter que cruzar 4 cidades e não fazer idéia do caminho.

“Hoje? Agora? Tu ta vindo AGORA?” – ela respondeu espantada e após uma pausa continuou. “Não acha melhor vir no final de semana? E aproveita e traz minha amiga e o teu amigo junto!” Parecia um bom plano.

Já não parecia mais, dentro do carro, com mais duas pessoas que não faziam idéia de como chegar lá, devíamos seguir rumo ao sul, mas minha amiga tinha certeza de que era para o norte, fomos nos aventurando por terrenos desconhecidos, algumas vezes não muito amigáveis. Entramos 6 vezes na palhoça, mas não saímos nenhuma vez.

Deveríamos estar perto, chegando, minha cabeça começou a se perder em questionamentos, eu nunca tinha visto aquela menina na vida, na realidade, eu sequer havia ouvido sua voz, por que diabos eu estava indo lá!? Estacionei o carro em uma lojinha pra pedir indicações, tinha como ponto de referência um hotel.

Ao perguntar sobre o tal hotel, a dona da lojinha foi categórica, só apontou pra algo que estava atrás de mim. Me virei e a uns 5 metros havia uma placa gigante com o nome do hotel e uma seta. Me senti um tanto idiota e voltei ao carro. O telefone toca, é ela.

Conversamos brevemente, estávamos atrasados, na verdade, bem atrasados mas estávamos chegando. Enfim havia ouvido a voz dela.

Seguindo o caminho indicado pela seta, fomos nos aproximando de uma casa onde uma menina de tênis vermelho esperava algo. Tinha certeza que era ela, passamos direto dançando frenéticamente dentro do carro deixando-a para trás. A música era propícia, no cd player tocava um cd louco que ia de Gipsy kings a Bee Gees, cortesia do meu amigo que começou toda essa história e que também estava no carro dançando.

Ela riu alto enquanto passávamos direto por ela, fiz a volta e como a música continuava a tocar, passei por ela uma segunda vez, ela ainda rindo e só então na terceira vez estacionei o carro próximo a casa. Eu estava nervoso, não sabia como e nem o que ia acontecer a partir daquele ponto. Mas já a tinha feito rir, marquei meus pontos.

Entramos na casa e fomos apresentados a família, mas não ficamos ali por muito tempo, fomos conhecer sua tão encantadora cidade interiorana. Andamos um pouco e paramos num parquinho, estava nervoso, ela era bem mais bonita pessoalmente e comunicativa, sorte minha que eu tinha mais 2 pessoas comigo, porque fiquei um bom tempo calado. Continuamos andando e ela continuou falando, permaneci calado, estava nervoso, muito nervoso, toda vez que tentava falar algo ou fazer uma piadinha saia tudo errado, aquilo tinha que passar, tinha que me recompor, pensei.

Afinal, eu tinha entrado naquela história toda porque parecia uma aventura, e uma aventura divertida! Não fazia sentido eu ficar tão nervoso e preocupado. Toquei o foda-se e as coisas começaram a andar como deviam. Andanças e horas mais tarde, voltamos a sua casa e ficamos perto da piscina conversando, grande parte do meu nervosismo havia sumido e quando as duas foram ao banheiro (hábito comum das mulheres) eu e meu amigo nos olhamos.

“E ai? O que achou?” – ele me perguntou.

“Curti muito, mas não tem como chegar aqui… Casa dela e tal…”-respondi.

Alguns segundos de silêncio.

“Vou esquecer o celular aqui!” -Falei e ele concordou com um aceno de cabeça e um sorriso.

Bem no momento em que elas voltavam, fingimos que nada havia acontecido e continuamos conversando, jantamos e nos despedimos. Entramos os 3 no carro, minha amiga estranhou o fato de eu não ligar o carro. Esperamos todos em silêncio e então meu amigo me cutucou:

“Já deu tempo.”

“Putz! Esqueci meu celular!” – Falei com um tom muito cínico e sai do carro.

Subi as escadas e a encontrei na sala, perguntei se ela havia visto meu telefone e ela ofereceu-se para ajudar na procura. Não demorou muito para acharmos o telefone perdido e quando íamos descendo pelas escadas, vi dentro do meu carro 2 vultos juntos. Espera aí… Tinha uma pessoa na frente e outra no banco de trás, por que agora os 2 estavam no banco de trás? OH MEU DEUS!!!! ELES ESTÃO SE PEGANDO!!!! NO MEU CARRO!!!

Ficamos os 2 parados nos degraus, um vento gelado soprava e ela se apoiou no meu peito, eu a abraçei e ficamos ali comentando levianidades, dando tempo para o suposto novo rolo terminar no banco de trás do meu carro. Nem eu sabia que o incidente era só uma encenação pra me dar mais tempo ali, e que os 2 estavam encostados no muro ouvindo nossa conversa.

Ela estava com a cabeça baixa e encaixada no meu peito e bem, eu não tinha muita chance naquele posição e já tinha me conformado, não ia rolar nada naquele dia.  Até que me surge minha amiga me aponta o dedo na cara e categoricamente diz: “SE PEGUEM LOGO!”.

“Acho que foi um ultimato” – disse brincando, sem saber no que ia dar.

Foi quando ela acidentalmente acertou o interruptor, fazendo com que a luz apagasse e soltou um “ops”. Mensagem passada, mensagem recebida e a mágica aconteceu.

Explodi no carro logo depois, no dia seguinte encotrei a marca da sola do meu tênis no teto do carro, mas enfim, estávamos voltando pra casa os 3, eu, contente dirigindo o carro e escutando os sábios conselhos da minha amiga que se dizia entendida do assunto. Ela dizia com muita convicção que eu não devia nem ligar e nem me comunicar de jeito algum com a menina naquele mesmo dia. Conselho que eu aceitei mais por insitência do que por sentido.

Chegando em casa, liguei o computador e entrei no msn, invisível, somente pra avisar minha amiga de que não iria falar com a menina e que estava indo dormir…

Quando ela surta uma segunda vez!

“FICA ONLINE! ELA QUER FALAR CONTIGO! ELA CURTIU! ELA QUER FALAR CONTIGO! FICA ONLINEEEEEE!” – tudo em caixa alta mesmo.

Fiquei online e converamos numa boa, uma semana depois começava o encontro nacional de estudantes, mas isso já é uma outra história.

Serenata

E então eu levei um pé na bunda, um daqueles que dói.

Não conseguia acretidar que depois de todo aquele tempo e de tudo que tinha rolado, era o fim, só e nada mais.

Fiquei alguns dias remoendo, não podia ser daquele jeito, algo não estava certo, eu precisava tentar alguma coisa, alguma coisa maior, alguma coisa melhor, alguma coisa épica! Foi quando num momento de iluminação, A idéia me veio a cabeça, uma serenata! Nenhuma garota nesse planeta deve resistir a uma serenata!

Precisava me preparar, não sabia tocar nenhum instrumento musical e não sou exatamente o melhor cantor que eu conheço, na verdade devo estar entre os piores. Tentei aprender algumas músicas no violão sem sucesso e a data ficava cada vez mais próxima.

A solução, ou melhor, o começo dela, veio numa conversa de msn. Foi algo do tipo: “to pensando em fazer uma serenata, topa?”. E assim o primeiro membro foi recrutado. Não éramos amigos nem nada, colegas de faculdade que se falavam bem de vez em quando. Sabia que ele tocava violino, mas não sabia se bem ou mal, se só tinha o violino pra fazer pose, mas ele tinha topado, mesmo não sendo meu amigo nem nada, ele tinha topado e isso já valia muito!

Com o primeiro membro já recrutado, achei que mais gente ajudaria, queria fazer algo grande, algo que seria pra sempre lembrado! Foi então que chamei 2 velhos amigos, ambos aptos a tocar violão e o grupo estava completo. Ensaiamos umas 2 vezes e eu certamente não estava confiante, nem perto disso, mas enfim, não tinha mais muito tempo!

Chega o dia, eu to nervoso, muito nervoso, fui buscar as pessoas pra dar uma última ensaiada e nesse tempo de espera, o cara que ia tocar violão me liga dizendo que o ônibus dele quebrou em joinville… Não podia ter começado melhor! Sorte que eu tinha DUAS pessoas que tocavam violão! Mas mesmo assim, tivemos que ensaiar desdo começo. Estavamos lá nós 3, vestidos de terno, gel no cabelo, tocando músicas num ponto de ônibus, é claro que não ia demorar muito pra um mendigo bêbado aparecer e pedir “aquela música lá!”, o que quer que isso signifique…

Eu não tinha o hábito de beber, mas não ia ter a cara de pau suficiente pra fazer isso completamente sóbrio, então uma dose de vodka e dirigir até lá.

Chegando lá, intrumentos em mãos, fomos em direção a casa. As luzes da sala estavam acesas e a tv ligada, esperamos na porta janela que alguém aparecesse. O pai dela apareceu, de início com uma interrogação no rosto que logo se tornou um sorrio e algumas gargalhadas. Nunca tinha me visto de terno, muito menos de gel no cabelo sempre bagunçado. Pedi para que ele descobrisse onde ela estava, em que janela ela estava, pouco tempo depois ele veio com a resposta, óbvia, no quarto dela.

Demos a volta na casa e eu parei em frente a janela, não sabia o que fazer, se chamava, se batia, se já começava a tocar a música. Pedi a opinião dos meus colegas de batalha e o consenso foi, bata na janela e espere…

Dei 3 batidas leves na janela da onde vinhma sons de explosões e gente morrendo, pensei, isso não pode ser um bom sinal…

“Quem é?” – ouvi a voz dela.

Um arrepio desceu pelas minhas costas e eu fiquei sem reação.

“Quem é que ta ai?” – ela perguntou novamente.

Continuei ali, paralisado, engoli em seco e quando ia falar alguma coisa ela aparece por uma porta lateral da casa. Fomos os 3 pegos de surpresa, e antes que qualquer um de nós pudesse esboçar alguma reação, ela falou.

“O que tu ta fazendo aqui?”

“Não é meio óbvio” – falei abrindo os braços.

Ela depois de um momento de hesitação entrou em casa, não demorei pra seguí-la e a encontro sentada no chão do banheiro, pernas dobradas junto ao corpo com os braços as envolvendo.

Uns 10 minutos depois, meus amigos me vêem saindo da casa, cabeça baixa, não queria falar sobre aquilo, recolhemos o material e fomos embora, mas a noite não podia acabar por ali, não daquele jeito, fomos a um bar.

Chegando no bar, o clima não era propício a uma melhora nos humores, tocava blues e em todas as mesas, casais. Fomos entrando até o fundo do bar, onde se encontrava a ultima mesa disponível, no trajeto ouvi, “devem ser alunos de direito”, claro, direito…

Sentamos na mesa, o violinista pediu 3 chopps e uma dose de vodka, o blues não estava ajudando, o chopp estava. Lá no outro canto do bar havia uma mesa com 3 mulheres, éramos 3 caras, a matemática fazia sentido.

Uma mesa próxima a delas ficou vazia e nos mudamos pra lá, mais de perto, as 3 mulheres já não pareciam tão atraentes, uma era visivelmente bem mais velha que as outras duas, a outra, gorda e a última tinha os olhos saltados e muito grandes. Ir até a mesa delas já não parecia uma idéia tão boa assim. Mas como bons amigos que são, tomaram aquilo como um desafio e eu teria que chegar até a mesa delas.

Sabe aquela dose de vodka que tava de bobeira? Foi toda e lá fui eu meio tonto até o covil das feras, cheguei como quem não queria nada, me apresentei, disse que tinha acabado de fazer uma serenata, que meus amigos na outra mesa estavam me zuando e que queria conversar. As duas mais novas riram de mim, como se fazer uma serenata fosse a coisa mais ridícula do mundo. No fundo eu sei que era inveja, ninguém nunca vai fazer uma serenata praquele par de barangas. A velhona curtiu e me achou um fofo, não sei se isso era bom ou ruim no contexto.

Conversa vai, coversa vem, a vodka me deixou bem mais sociável, meus amigos se juntaram a mesa e descobrimos a história daquelas ciganas misteriosas. A mais velha, mãe da dos olhos saltados, que era amiga da gorda havia descoberto que o marido (naquele momento já ex-marido) tinha uma amante e estava roubando o dinheiro da família, para… Fugir com a amante! E a filha estava levando a mãe para afogar as mágoas e se pá, pegar um muleque serelepe. Me senti ameaçado.

O nível alcólico das nossas adoráveis companheiras estava subindo, o nosso não, e a gorda não parava de me dar tapas nas costas e a situação estava ficando chata. Um dos meus amigos me matava com os olhos e implorava pra ir embora, o outro estava numa boa, talvez até, apreciando a compania de damas tão singulares.

4 da manhã, hora de ir embora, me despeço das senhoritas e saio do bar seguido por um dos meus amigos, a velha estava muito querendo alguma coisa, quase me beijou no impulso, mas espera ai, onde está o outro amigo?

Olhamos pela janela da porta do bar e a cena era inacreditável, o amigo ausente, agachado nos seus 1,90 beijando com vontade a velhona, não conseguia acreditar nos meus olhos. Ele sai do bar com cara de quem não fez nada, acreditava que ninguém tinha visto e nunca iria saber de nada, seguramos as risadas. Em vão, ri como até minha barriga e minha mandíbula doerem e só consegui gritar uma coisa.

“MABEEEEEEEEEEEEEEEL!”

“Boquinha de cinzeiro.” – ele disse.

Dunas e golfinhos

“Eu nunca fui nas dunas…”, ela disse ao passarmos pelos montes de areia que se juntavam ao lado da rua.

Estacionei o carro ali perto, e a pé fomos a mais alta das dunas. Ela andava de um jeito meio trôpego, ameaçando cair na vastidão de areia a qualquer momento. Meus olhos acompanhavam aquele balé descoordenado com receio, não sabia se conseguiria segurá-la a tempo e o tombo parecia inevitável. No topo da duna mais alta, sentados, abraçados, o céu completamente azul e limpo da manhã parecia sorrir para nós, e o único som audível era o das ondas quebrando, a calmaria tomou conta do momento e eu sorria por dentro.

Ela se levantou, parecia uma criança que encontra algo que nem imaginava ser real pela primeira vez, seus olhos sorriam e seu sorriso era sincero. Só que o andar ainda continuava desajeitado, vacilante; o rum, o encontro durante a madrugada claramente ainda estavam fazendo efeito nela. Corri em seu encalço, e enquanto me aproximava, ela caiu, me segurou pelo braço e eu fui levado junto de encontro ao chão. Caí por cima dela, e não, nada ali foi planejado, desejado talvez.

Nossos rostos ficaram muito próximos, nossos olhares se encontraram e ali ficaram, parados, presos, atraídos, sem saber exatamente o que estava acontecendo ou iria acontecer.

Até a realidade me acertar na cara, como um soco inesperado. Ela olhou para a esquerda e eu para a direita e soltamos comentários irrelevantes sobre o lugar. Me levantei e à ajudei a se levantar. Fiquei confuso, não conseguia entender o que havia acabado de acontecer, não tive muito tempo para pensar, ela se desequilibrou novamente e eu a envolvi em um abraço seguro e firme.

“Eu acho que eu ainda tô meio tonta…”- ela disse com um sorriso escondido.

“Eu percebi” – repliquei.

Novamente no topo nos sentamos e ela perguntou:

“Teus amigos ainda me acham uma idiota?”

“Sim, todos eles acham que tu é muito idiota por ter feito isso…”

“Ter terminado contigo?”

“Sim, ter terminado comigo…”.

O silêncio tomou conta enquanto ela vagarosamente largava seu peso sobre meu braço, fomos nos deitando na areia, e com ela deitada sobre meu peito ficamos alguns minutos ali.

“Ainda podemos ir na praia, ela fica bem perto!” – exclamei.

“Vamos!” – ela respondeu animada.

O caminho até a praia era curto, e passou num piscar de olhos. Haviam poucas pessoas na faixa de areia, o céu continuava azul e límpido, assim como o mar, que embora não ventasse, ostentava majestosas ondas.

Subimos em um rochedo alto, onde as ondas respingavam ao chocar-se. Novamente a alegria em seus olhos era notável , ela nunca havia visto ondas tão grandes antes. O choque das ondas contra os rochedos fazia com que uma cortina de água e espuma se erguesse á nossa frente.

Ocasionalmente, uma dessas ondas ao subir, formou um pequeno arco-íris diante de nós.

“Tu viu!?!”- perguntei exaltado.

“Aham! Vi sim!” – ela respondeu mais animada ainda.

Com o tempo passando, decidimos esperar que um surfista que estava visível pegasse uma onda para então irmos embora. Próximo ao surfista, surge uma barbatana.

“TUBARÃO!”- meus pensamentos gritaram.

Como se estivesse cavalgando a onda por dentro, um golfinho solitário aparece, os olhos dela brilham como eu nunca havia visto antes e o golfinho desaparece sob as águas. Para que então dois deles saltassem sem o menor aviso, nos deixando simplesmente sem palavras.

“Tenho medo de que nunca vá ser tão perfeito como foi hoje…”

“Tu sempre se supera, eu sei que a próxima vai ser legal!”

E até hoje eu acho que o universo estava querendo me dizer alguma coisa com aquilo tudo…

Bom, passei 40 dias vagando pela europa com uma mochila nas costas e na volta, além da bagagem material (pesada pra cacete!) eu trouxe comigo um pouco de “bagagem intelectual”. E nesse tempo fui listando “coisas” que eu aprendi andando pelo velho continente, certamente esqueci de alguns, mas listei 115!

1- Você VAI sentir saudade de casa.

2- Na França, os estudantes tão SEMPRE fazendo excursão!

3- Na Itália, existe uma taxa pra usar a mesa dos restaurantes! Aquele valor a mais não eram os pãezinhos!

4- McDonalds é o melhor amigo dos viajantes pé de chinelo! Comida barata!

5- McDonalds é o SUPER melhor amigo dos viajantes pé de chinelo! Banheiro de graça! (a maioria!)

6- Franceses são uns bostões arrogantes mesmo.

7-  70% da população de Veneza é composta por chineses. (eu não to exagerando!)

8- Usar uma bolsa com elástico por baixo da calça pra esconder o dinheiro começa a machucar depois de um tempo…

9- Ficar uma semana usando a mesma roupa NÃO é legal!

10- Banho em albergue é TENSO!

11- Nunca saia sem se intupir de desodorante, nas ruas é frio mas dentro dos lugares é bem quente.

12- Mapas são essênciais.

13- Placas de sinalização são muito importantes!

14- É mais fácil entender um italiano falando inglês que um britânico.

15- Os europeus adoram brasileiros!

16- Kebab é porcão mas é delícia!

17- Kebab domina a Europa!

18- Sempre se encontra brasileiros nos locais mais improváveis e bizarros!

19- Veneza é cheia de potênciais “picos do estupro”, não queira se perder por lá a noite!

20- Indiano se encontra em qualquer lugar! Bollywood yeah!

21- Na Europa, os estrangeiros são dividos em 2 grupos, turistas e chineses.

22- Na França as atendentes do McDonals são gatas!

23- Os banheiros públicos de Paris são demais!

24- Esquilos mordem, mais de uma vez!

25- Neve é como gelo triturado.

26- Andar de trenó é muito divertido!

27- Subir a torre Eiffel pelas escadas é uma péssima idéia!

28- Bonecos de cera podem ser assustadoramente reais!

29- Libra é cara pra cacete!

30- Bar de kakaokê é demais!

31- Todo mundo usa Facebook na Europa.

32- Cerveja austríaca é cruel!

33- Poloneses são um povo estranho.

34- Músicais são legais!

35- Viagens de trem são um saco.

36- A chance de ser atropelado é muito maior no Reino Unido.

37- é impossível ver o Louvre todo num dia.

38- Fizeram bonecos de pelúcia do Van Gogh.

39- Cds são baratos.

40- Existem lojas de Posters

41- Lojas de tranqueiras nerds muito grandes!

42- Não durma se estiver dividindo a cabine com um chinês sorridente!

43- KFC é uma merda!

44- Subway tem refil de refrigerante!

45- Carrinho de super mercado anda de lado!

46- Eu faço muitos amigos quando bebo demais.

47- Se pode falar o que quiser em voz alta. (em português)

48- Dividir cama de casal é tenso.

49- Sucrilhos não tem açúcar lá.

50- Tudo tem pimenta!

51- Existem muitos sósias do Revolver Ocelot lá.

52- Em 1 dia na irlanda eu vi mais gente ruiva do que em todos os outros dias da minha vida somados!

53- Comida ilimitada custa 13 euros!

54- As medidas do Reino Unido não são entendíveis.

55- POPO ROCKS!

56- Que dá pra sobreviver sem internet.

57- 99,9% da população européia fuma.(MUITO!)

58- E isso deixa a sua roupa defumada!

59- Mamutes da Dinamarca dão medo!

60- Quando escutavam agente falando em português, achavam que éramos italianos.

61- Chove naftalina em Dublin.

62- DJ Hero é um saco.

63- Que eu gosto de placas de sinalização.

64- Bife a milanesa é austríaco!

65- Que pandas são amarelos e pretos!

66- A grama na França é bonita!

67- A grama na Áustria é neve!

68- Whiskey com coca é bom.

69- No lugar de pombos existem corvos.

70- Tomar 3 cervejas em menos de 5 minutos só por que é de graça não é uma boa idéia.

71- Que o Popo tem um mangá só dele!

72- Meu sonho de consumo ta num nerd shop em Paris!

73- Que em Holyhead as pessoas resolvem suas diferenças no braço, batem nas esposas quando tão de saco cheio e falam como piratas!

74- Não se deve chegar perto de um velho barbudo bêbado irlandês com uma camera na mão.

75- Vida de mochileiro cansa muito!

76- Caminhar faz bem pro Áustria.

77- Que no Super Max o sanduiche grande com refrigerante e batata grande é mais barato que o médio.

78- Que na Austrália as pessoas morrem de calor.(literalmente)

79- E que as crianças andam com capacetes com olhos pintados em cima pra evitar ataques de um pássaro nativo de lá. (ele não te ataca se tu encarar ele)

80- E que isso nem sempre funciona…

81- Espanhol é realmente uma lingua feia.

82- As pessoas tem dentes feios no Reino Unido.

83- Que museu em sua maioria só tem móveis velhos e quadros, e isso é um saco.

84- Que eu sou mais alto que napoleão!

85- Que eu devia ter trazido meu livro!

86- Pub na Irlanda é como padaria no Brasil, tem em toda esquina!

87- Que ninguém consegue falar meu nome direito!

88- FRIO DA PORRA!

89- Comida inglesa não tem gosto de nada.

90- Pratos italianos são minúsculos!

91- Lá tem coca sem cafeína, e ela tem o mesmo gosto da outra

92- Na Escócia eles não falam “yes”, eles falam “aye”!

93- O vermelho da coca cola muda de país pra país.

94- Na Inglaterra só toca Michael Jackson e Queen

95- Em Amsterdam a proporção é de 1 carro pra 10 bicicletas!

96- E é mais provável que você seja atropelado por uma bicicleta por lá.

97- E lá ciclistas tomam multa!

98- Australianas não tem pudor!

99- Nunca falar mal de alguém antes de ter certeza sobre a nacionalidade da pessoa.

100- As vitrines são tensas em Amsterdam.

101- O Rafa é um piriguete!

102- Que escrever 100 coisas não foi difícil!

103- HE’S GOING FAST!

104- Space cake da formigamentos e sono.

105- Todas as versões da Serena são encontradas lá!

106- Putas de Amsterdam não dão desconto nem se tu fizer uma massagem nelas!

107- HUGO!

108- Mulher quando entra em loja é igual em todo o mundo!

109- Patinação no gelo é mais difícil do que parece!

110- Mas é fácil pegar o jeito!

111- Cair no gelo dói muito!

112- Eletricidade estática existe! E faz barulho!

113- Snowboard pode ser fatal!

114- Os carros na Europa tem mais botões no painel que um teclado de computador!

115- Porre de Jägermeister NÃO é legal!

Bom, eu encerro por aqui a lista das 115 coisas que eu aprendio na minha viagem louca pela Europa!

Até mais!